A razão… para além dos sentidos.
"O racionalismo pode consistir em considerar a razão como essência do real, tanto natural quanto histórico, sustenta a primazia da razão, da capacidade de pensar, de raciocinar, em relação ao sentimento e à vontade, pressupondo uma hierarquia de valores entre as faculdades psíquicas, ou a posição segundo a qual somente a análise lógica ou a razão pode propiciar desta forma o desenvolvimento da análise científica, do método matemático, que passa a ser considerado como instrumento puramente teórico e dedutivo, que prescinde de dados empíricos, aplicados às ciências físicas que levaram a uma crescente fé na capacidade do intelecto humano para isolar a essência no real e ao surgimento de uma série de sistemas metafísicos fundados na convicção de que a razão constitui o instrumento fundamental para a compreensão do mundo, cuja ordem interna, aliás, teria um carácter racional".
É assim que René Descartes descreve o racionalismo. E diga-se, descreve, à sua imagem, de forma genial. O que vocês provavelmente não sabiam é que este senhor nasceu em 1596 e faleceu em 1650… ou seja, há mais de 350 anos. Muita coisa mudou no mundo desde então, a humanidade evoluiu brutalmente e o Homem que Descartes conheceu não é certamente o Homem que eu posso agora conhecer.
O que me leva a escrever este texto é aquela pergunta que passa pela minha cabeça inúmeras vezes: “será o comportamento do Homem racional ou irracional?”
Ao longo das nossas vidas sempre nos foi ensinado que o Homem é um ser Racional, em que a tal razão seria preponderante na sua forma de pensar e consequentemente agir, mas analisando bem os factos isto não passa de uma teoria. Acredito que o Homem possa ter passado por uma onda racionalista, mas acredito sinceramente que muito poucos somos verdadeiramente racionais no seu sentido da palavra.
A racionalidade vem portanto da capacidade de pensar, de raciocinar, em relação ao sentimento e à vontade. Bem, provavelmente passaram a vida a dizer que fumar é um comportamento irracional, mas se analisarmos bem as coisas pode não ser. Pode portanto ser um comportamento bem racional. Reparem, quando uma pessoa fuma porque quer, porque é a sua vontade, esta pessoa está a ser racional, está a usar a sua capacidade de avaliar a situação, isto é “eu decido, eu fumo porque quero”, e mais racional não pode haver. Claro que também existe o outro pólo que infelizmente é o da maioria dos fumadores, isto é, admitindo ou não… não conseguem deixar de fumar e fumam porque estão viciados, o que faz deles autênticos seres irracionais porque o vicio é algo que se sobrepõe à sua própria vontade e poder sobre o corpo e ao seu sentimento. Claro que quem me conhece deve estar a pensar “este jovem está a defender parte dos fumadores (por mais pequena que seja)? Deve estar a sentir-se mal”, mas sosseguem… eu nunca mais digo que um fumador é sempre irracional, mas posso dizer que ele é sempre estúpido (do Lat. stupidu, admirado; adj. e s. m., falta de inteligência, de juízo ou discernimento; que está sob a impressão de estupor; atónito; ant.,entorpecido, insensível.).
Podemos também fazer uma boa comparação entre dois aspectos: a racionalidade e a autonomia. Se a racionalidade é a capacidade de pensar e agir por nós mesmos, a autonomia é algo que fica muito próximo. Esta comparação leva-me de novo para duas realidades distintas, quase pólos diferentes da mesma pilha. Eu vou passar a explicar duas formas de ver esta realidade, e como sou a favor de que “a realidade cada um a faz” (grande Kelly), vou deixar ao critério do leitor a escolha pela sua realidade.
Temos então duas realidades. A primeira diz-nos e até se pode comprovar, que hoje em dia as pessoas têm mais autonomia que antes, têm maior capacidade decisão, isto é, podem orientar as suas vidas de acordo com as suas escolhas e decisões. Piaget descreveu a autonomia como “a capacidade de coordenação de diferentes perspectivas sociais…” e esta questão da autonomia faz então a sociedade de hoje ser mais racional, visto que existe a tal capacidade de pensar e raciocinar. “Eu sou racional porque eu penso, eu faço o que quero de acordo com a minha vontade, independentemente do que eu sinto, e até estou a colaborar para evolução da minha espécie” e dito isto eu só posso concordar, sim, é verdade, as pessoas são na sua maioria racionais. A autonomia de cada um fez com que as pessoas hoje em dia possam viver menos dependentes umas das outras, no entanto, de uma forma mais racional.
Por outro lado, podemos questionar esta posição. Até que ponto são as pessoas autónomas e até que ponto têm as pessoas capacidade de pensar de acordo com as suas vontades? Seremos livres ou viveremos tipo “máquinas” do tão popular filme Matrix? Se analisarmos com cuidado a vida de quase todos os elementos sociais (curiosamente os “saudáveis”) vamos reparar facilmente que as pessoas têm uma vida bastante limitada por várias questões. Respeitam regras sociais, aderem a modas, a estereótipos e vivem de forma rotineira. Bem, as regras têm que respeitar, são obrigatórias… as pessoas simplesmente têm que cumprir determinados comportamentos mas podem ter diferentes formas de pensar. Isto faz das pessoas racionais, mas com alguma repressão ou seja, estão subjugadas às racionalidades dos outros, o que faz deles irracionais. No entanto, lá vão controlando os seus sentimentos.
No caso dos estereótipos e modas, o assunto já é mais claro… Se as pessoas vivem pelos estereótipos e modas sem sequer porem esses conceitos em causa ou sequer pensarem sobre eles, estão com pouca capacidade de pensar por si próprias o que faz delas pouco racionais. Este caso das modas e estereótipos é facilmente explicado por um exemplo já por mim dado no passado. Tu que és fiel leitor, já te deves ter lembrado… o exemplo dos cordeirinhos. Pois é, os cordeirinhos andam todos juntos e comportam-se todos da mesma forma, o que faz deles seres pouco racionais. E o Homem por vezes está tão próximo deles…
Quanto às rotinas, aí é que entramos na teoria Matrix, em que somos autênticas máquinas. O ser humano rotineiro é aquele ser humano que faz tudo de forma programada, em piloto automático. Se faz tudo em piloto automático, vai entrar em comportamentos absolutistas e principalmente mecanicistas, o que faz das pessoas pouco ou nada racionais, ou se preferirem pouco pensantes e sem qualquer tipo de Razão ou Realismo a orientar as suas vidas.
Dados estes exemplos e voltando à questão da autonomia, as pessoas estereotipadas ou rotineiras, não são assim tão autónomas. Encontram-se presas aos costumes e filosofias que a sociedade lhes impõe e se pensam com a cabeça dos outros são pouco racionais.
Agora que já vos baralhei a cabeça vou aprofundar um bocadinho mais esta questão. Esta semana fiz um “role-play” em que inventei uma história muito depressiva (demasiado depressiva) em que eu nessa encenação disse a uma amiga que me iria suicidar… E foi aí que eu comecei a pensar em tudo isto… o suicídio, será uma atitude racional ou irracional? É uma questão complicada, porque geralmente uma pessoa que decide suicidar-se encontra-se num estado de grave depressão, o que nos remete para a sua capacidade de pensar. Uma pessoa que se suicida, antes de se suicidar, pensa em fazê-lo, mata-se, cumpre a sua vontade, logo é racional. Uma pessoa que se suicida, está deprimida, não tem uma normal capacidade de pensamento, logo não pensa de forma racional, o que faz do suicídio algo irracional. Sinceramente não estou preparado para responder a esta questão, deixo a resposta para os entendidos na matéria. Só me apercebo que sendo racional ou não, nunca é uma atitude estúpida, o que faz de um suicida uma pessoa mais inteligente do que aquele fumador.
Tu, meu caro leitor, não achas sempre que está a alguém a pensar por ti? Não és Deus pois não? Então és irracional, e o racionalismo em massa não passa de uma utopia, bem parecida com aquelas propostas pelos grupos de esquerda?
Tenham boas reflexões.
Ass: abstract


3 Comments:
Razão:
do Lat. ratione
s. f.,
modo de pensar próprio ao Homem;
faculdade de raciocinar ou de estabelecer conceitos e proposições de modo discursivo (não intuitivo), segundo as regras lógicas do raciocínio;
faculdade dos princípios;
faculdade de distinguir o verdadeiro do falso, o bem do mal;
bom senso;
justiça;
dever;
rectidão de espírito;
prova por argumento;
causa;
motivo;
ideia justificativa;
Razão? Será que a razão se consegue justapor aos instintos às paranóias....
Será assim tão linear?
Percursos de vida levam a diferentes interpretações...
Boa reflexão :)
Há várias interpretações que podes fazer á cerca do ser racional ou não. Acho que não podes falar por exemplo do termo "moda" de roupa, como um acto irracional, as pessoas mesmo que comprem roupa da moda, compram com um objectivo, logo não se pode conciderar de todo um acto irracional ;)
De predictable pro mundo \m/ (LOL)
Há várias interpretações que podes fazer á cerca do ser racional ou não. Acho que não podes falar por exemplo do termo "moda" de roupa, como um acto irracional, as pessoas mesmo que comprem roupa da moda, compram com um objectivo, logo não se pode conciderar de todo um acto irracional ;)
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